Todo mundo já ouviu falar – ou deveria ter ouvido – na banda brasileira de rock conhecida pelo nome de Legião Urbana. Na minha opinião, e na de muitos mais, a maior banda brasileira de todos os tempos. Mesmo passada mais de uma década após o fim da banda dada a morte de seu líder, novos fãs – conhecidos pela alcunha de Legionários – continuam a surgir, fazendo desta excelente banda uma das mais procuradas mesmo em épocas onde o que domina as rádios são porcarias anencefálicas do estilo de alguns pseudo-estilos e pseudo-músicos que não me cabe citar.
Metal Contra As Nuvens é a mais longa faixa da Legião Urbana – e uma das melhores. A segunda faixa de V, um álbum… diferente. O preferido pelos fãs mais fanáticos, já ouvi dizer que o que só um legionário entende. A música conta uma história aparentemente localizada em um cenário medieval, com referências a castelos, princesas e espadas. Recheada de referências mitológicas, a música usa de fortes analogias para comunicar sua mensagem. Num primeiro olhar, ela não diz nada com nada, e bem poderia ter sido escrita num momento em que o Renato estava chapado. Ledo engano. Não é qualquer chapado que escreve uma música criticando veladamente o presidente.
“Mas hein? Cadê a crítica ao presidente?”, demanda o leitor. Uma análise mais criteriosa do que o primeiro olhar mostra diversos pontos de crítica ao então presidente Fernando Collor de Mello. Se você não sabe quem é esse cara, eu sugiro dar um pulinho nos livros de história, ou perguntar para os seus pais. De qualquer forma, o plano econômico do Collor foi um desastre total e ele confiscou o dinheiro das poupanças, confiscou os direitos autorais (o que claramente era um desastre para a banda), fez e aconteceu com a economia. Claramente ele não leu Maquiavel… Mas essa não é a questão. O que vem ao caso é que as críticas ao presidente estão por toda parte: é só olhar a letra da música. Para os mais distraídos, podemos citar alguns trechos. Quando a música fala de traição, quando fala em fome e destruição, quando afirma que “há quem se alimente do que é roubo”, quando diz que é “o descaso o que condena [e] a estupidez o que destrói”. Não se faz necessário comentário algum.
Ao mesmo tempo, Metal Contra As Nuvens é uma música de amor. Ela fala sobre as lutas pela vida, pela felicidade. Quem se atrever a dizer que a felicidade chega sem lutas, e que a rendição é um bom método de alcançá-la, eu diria que se preparasse para as pedradas, mas deve viver num mundo diferente de nós meros mortais. Além disso, afirmar que as últimas linhas da música são qualquer coisa diferente de uma conclusão esperançosa (ocasionais em músicas de crítica escritas pelo Renato Russo) não qualifica como nada diferente de um claro e patético absurdo.
Metal Contra As Nuvens é uma música excelente. Possivelmente uma das mais poéticas da já poética Legião Urbana, com um arranjo maravilhoso e letra incomparável. A rainha de um álbum maravilhoso, com canções esplêndidas e profundas. Altamente recomendada para qualquer pessoa que tenha um cérebro perfeitamente funcional e saiba raciocinar o que a letra diz ao invés de ficar apenas “tunts tunts”. Para sua conveniência, segue a letra.
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfazViajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleaisEu sou metal – raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal – eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal – me sabe o sopro do dragãoReconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãosMinha terra
É a terra que é minha
E sempre será
Minha terra
Tem a lua, tem estrelas
E sempre teráQuase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesaQuase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindoOlha o sopro do dragão
Olha o sopro do dragão
Olha o sopro do dragão
Olha o sopro do dragãoÉ a verdade o que assombra
O descaso o que condena
A estupidez o que destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe maisTenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra de ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãosEu sou metal – raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal – eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal – me sabe o sopro do dragãoNão me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo entãoTudo passa, tudo passará
Tudo passa, tudo passará
Tudo passa, tudo passaráE nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contarE até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos